Podcast Linha Evolutiva

May 26, 2009

Seja feita vossa vontade assim na terra como céu.

Vindo do Rio de Janeiro para São Paulo, no domingo. Ao meu lado uma senhora. Com certeza com mais de sessenta anos. Quieta, a princípio.
Não demorou muito para perceber que me observava. Com o tempo, logo que o serviço de bordo começou, percebi sua boca salivando. Inquietação mútua.
Achei melhor retirar o fone de ouvido para saber o queria dizer. Começamos a conversar.
Não é de hoje que os papos com idosos me atraem. Quando comecei a trabalhar, com quatorze anos, na caixa econômica federal, isso acontecia diariamente.
Lembro de muitas histórias de velhinhos que iam saber seu saldo da poupança. Contavam-me sua vida toda - e eu sonhava.
O fim da vida sempre me interessou. Não digo a morte - Falo sobre o futuro. Aonde vamos parar... Quais são as cenas do próximo capítulo....
Quando comecei como locutor de rádio queria entender aonde estavam os com mais de quarenta. O que acontecia com eles que simplesmente não estavam mais no ar.
Se você trabalha em uma redação, olhe pra o lado e repare quantos com mais de quarenta existem a sua volta. Vai perceber que são poucos. Tá, tá, tá - Foco, KIko!
Vamos voltar a falar da senhoria da ponte aérea. A princípio ela perguntou se gostava de viajar sozinho. Disse que às vezes fazia bem, que era bom pra pensar e ficar quieto (era o que estava fazendo até então, rss). "Ah, eu não saio mais sozinha do país, não", disse, com uma carinha meio tristinha. Perguntei com quem estava. "Estou num grupo de quatro amigos", disse ela, esboçando discreto sorriso. A partir dai passamos a falar da importância dos amigos nas nossas vidas. Era visível que ela tinha uma condição de vida "ok". Notei a bolsa prada e o anel de diamantes que usava a caminho do Chile. Sua passagem era de milhagens, devido ao grande número de viagens que fazia - sempre com amigos. Sua simplicidade era maior que tudo isso. Perguntou-me se tinha muitos amigos. Disse que sim e que eram muito importantes para mim.
"Cuide deles. Depois da família é bem maior que se pode ter", pontuou ela, dessa vez com dedo em riste. Perguntei o por quê? Sem titubear, respondeu. "Os amores se vão e os filhos casam, meu filho. E o que resta são seus amigos. Pessoas que você escolheu pelo caminho". Opa, tem alguém falando por essa senhora - pay attention, Kiko.
Terminar a vida sozinho é um pensamento que me corrói. Sempre. Quando era criança chorava pedindo para minha mãe não ficar velha. Fazia isso olhando para as mãos dela, ainda lisas. Mas quem somos nós para lutar contra o que a vida nos oferece? Nem irmãos gêmeos univitelinos são enterrados juntos!
Uma semana antes tinha ligado para alguns dos meus amigos agradecendo o quão legais eles tinham sido comigo durante uma fase ruim.
Quando desci do avião liguei para mais alguns. Pessoas que tinham mandado mensagens durante o final de semana e que fiz questão de responder.
Convidei uma amiga, que vai embora do Brasil, para vir dormir em casa (vou morrer de saudade).
Acho que o papo com essa senhora mexeu bastante comigo. Faz dois dias que lembro da conversa e do rosto dela. Mesmo pouco antes do final da vida, aproveita mais um bocadinho com aqueles que acompanharam e nunca a deixaram sozinha.
Desculpa, hoje to melancólico.
Skeleton Boy.

May 14, 2009

Poupe-me. Deixe-me ver suas ias.


Faz tempo que voltei, passei por uma fase bem loca nos últimos meses e, mesmo assim, não sentia vontade de passar por aqui.
Talvez porque falar de São Paulo e das coisas daqui fossem menos interresantes? Talvez naquele momento. Mas não agora.
Fiquei dois meses sem trabalhar. Fazendo apenas o que queria. Baixei muitos discos, mudei de repertório, pintei minha casa, mudei os móveis de lugar,
cortei o cabelo e fui muito ao cinema. Ainda falta muita coisa. Sem dúvida a coisa mais interessante que aconteceu nesse processo todo foi voltar enxergar as coisas pela ótica do "casos, caos e coisas de vários tipos", eu explico. Esse olhar é um olhar do tipo: Olha isso, preciso contar pra alguém. Manja quando você está sozinho por ai e vê coisas que sente necessidade de compartilhar? Pronto. É isso. E é para isso que vou continuar a usar esse amiguinho aqui. Quando uma simples ida ao supermercado pode ser uma odisseia.

Até que eu estava cansado. Ia apenas comprar uns ingredientes para fazer uma sopa. Nada demais. Dai as vozes começaram a falar na minha cabeça: ''Repare nos pães. Veja como eles estão organizadinhos e separados por cotas", diziam elas. E, de fato, os pães estavam lá dividos por cotas em baias diferentes. Dos branquinhos aos mais escurinhos... E eu que sou pardo em qual baia estaria???
Avisa lá. Gente, pelo amor de Deus, preciso parar de fumar... Outro dia um amigo me relatou que se imaginou a manteiga caindo do pão durante uma bad trip. Será que ser o pão é bom? Pão ou manteiga? Viu. Preciso parar!
Voltando ao supermercado é chegada a hora de pagar. E no pão de açúcar eles não são humanos, sabia? Nem eu. Descobri naquele dia. Como pode alguém repetir tantas vezes: Cliente mais? Nota fiscal paulista? Juro, eu já cheguei dizendo dois "nãos" para não fuder o amiguinho com calo na língua de tanto repetir as mesmas frases. Só que nesse dia o amiguinho, em treinamento, estava a fim de mostrar serviço na firma. Mesmo eu dizendo os dois "nãos" antecipados ele insistiu com as duas perguntas. E é nessa hora que a voizinha aparece dizendo: "olha para cara dele agora!" Olhei. E não é que ele tinha virado uma nota fiscal paulista com cpf e tudo. Assustador.

Ir ao centro também não é tarefa fácil quando se ouve vozes o tempo todo no seu ouvido. Olha aquilo! Olha aquilo! Eu olho e não aguento. Você já foi ao poupatempo da sé? Não? Que triste, amigo. É uma experiência incrível aonde todas as "ias" se encontram. Antropologia, filosofia, psicologia, e cardioplastia. Essa última eu explico melhor o porquê. Estive lá na semana quando ainda se começava a falar na gripe suína. Na fase que o Datena fazia terrorismo e esbravejava na tevê cobrando as autoridades.
De repente vejo um cidadão de máscara andando no meio da multidão. Será? Não é possível, meu pai. Ele deve estar vendo muita televisão ou caiu do avião da gol vindo do México. Não hesitei e fui atrás. Claro. Moço, porque o senhor está usando máscara? "É porque eu fiz uma cardioplastia". A, tá! Rabinho entre as pernas... Saída pela esquerda. Tsaaaa! Nisso passa um senhora woompa, quase anã, de conjunto abobora. Deu vontade de pegar no colo e sair correndo com ela. Queria levar pra casa. Vi também senhores com aqueles ternos lojas Garbo, de crente, grandes, sem ajuste e com pastinhas na mão. Adivinha? Iam tirar o RG. Bonitinhos. Todos eles. Você não precisa nem fazer esforço é só sentar e deixar o desfile acontecer. E a gente se achando na modinha "pump up the jam"! Dá vontade de chorar. Isso sim que é style original roots. Sai de lá na humildade, ceito, Tru?!